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Orfeu

Nome

Orfeu

Categoria

Empresa Discográfica

Biografia / Percurso / Descrição

ARNALDO TRINDADE LDA. (AT). Editora discográfica sediada no Porto. Fundada por Arnaldo Manuel Albuquerque Trindade (n. Porto, 21 Set. 1934), empresário e comerciante de electrodomésticos, iniciou a edição discográfica em 1952. Destacou-se pelo modelo empresarial implementado, que estimulou a competitividade na *indústria fonográfica em Portugal. Nos anos 30, Januário Augusto Trindade (pai de Arnaldo Trindade), havia já comercializado fonogramas da editora Polydor, no estabelecimento de electrodomésticos localizado na Rua de Santo António (Porto), tendo também efectuado algumas gravações. Aos 18 anos, Arnaldo Trindade, que havia interrompido o curso de Economia para trabalhar na loja do pai – desde 1949 sediada na Rua de Santa Catarina –, retomou a comercialização de fonogramas importados. Motivado pelo gosto pessoal e pelas afinidades estéticas com os poetas do «movimento presencista», decidiu gravar poesia dita pelos próprios autores, actividade iniciada com José Régio, Miguel Torga e Alberto Serpa. As gravações eram realizadas na loja. Os fonogramas, produzidos um a um através de um método semiartesanal, foram editados com a etiqueta Orfeu, única marca da empresa. O catálogo da editora passou a incluir poesia declamada – a Torga e Régio seguiram-se Jaime Cortesão, José Rodrigues Miguéis, Eugénio de Andrade – e, posteriormente, prosa (Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Fernando Namora, Sophia de Mello Breyner e Agustina Bessa Luís), gravações que dariam origem à colecção Antologia da Poesia Portuguesa. A empresa manteria a edição de discos declamados até à década de 70, gravando vários diseurs, entre os quais Vasco Lima *Couto, Eunice Muñoz, Jaime Valverde e Mário Viegas. Foi o contacto com o *jazz e com os músicos alemães residentes no Porto Heinz Worner (vibrafone) e Walter Behrend (*acordeão e instrumentos de tecla) que proporcionou as primeiras gravações musicais, efectuadas em 1956 no palco do *Teatro de São João. Até ao final da década de 60 a empresa editou, maioritariamente, intérpretes de *fado (Maria da *Fé, Manuel *Fernandes, Tristão da *Silva, e.o.), *ranchos folclóricos e *conjuntos típicos do Norte do país, não havendo preferências por géneros e estilos musicais, o que foi determinante para a constituição de um catálogo diversificado. A popularidade e consequente êxito alcançado com os fonogramas do Conjunto António Mafra – de que se destacou uma edição estereofónica gravada nos EUA durante uma tournée do conjunto (Newark, 1960) – contribuíram para o aumento do investimento na gravação e edição de fonogramas musicais que possibilitou as primeiras edições discográficas de conjuntos de *música ligeira e do emergente *pop-rock sediados no Porto, entre os quais o Conjunto Pedro Osório, os Titãs, o Conjunto Sousa Pinto e o *Pop Five Music Incorporated. No início da década de 60 destacaram-se igualmente as primeiras gravações de Adriano Correia de *Oliveira, um dos protagonistas da emergente canção de protesto [Ver Canção de intervenção]. O carácter amadorístico do início da actividade deu lugar a uma política empresarial competitiva, assente na experiência adquirida na importação e distribuição de electrodomésticos, atitude inédita no mercado discográfico português. A criação de estruturas próprias de divulgação e distribuição, a política de promoção concertada, a representação em Portugal de catálogos de editoras estrangeiras (Durium, Vogue, Pye Records, Tamla Motown e Island) e a organização de apresentações e espectáculos dos músicos representados (Marino Marini, Sandy Shaw, Françoise Hardy, Jackson Five, e.o.) distinguiram a estratégia da editora a partir da segunda metade da década de 60. Ainda em 1969 destacou-se a organização da Convenção Internacional do Disco (Ofir, Esposende), evento onde participaram vendedores, jornalistas e outros editores, portugueses e estrangeiros, bem como músicos representados pela editora (Foundations, Status Quo, Long John Baldry), num evento pioneiro destinado a promover o catálogo que assegurou um número mínimo de vendas e representações aos convidados, e cujo impacte suscitou uma referência na revista americana Billboard. Simultaneamente formaram-se equipas de consultores e promotores, no Porto (Viale Moutinho, Sales Esteves e Jorge Cordeiro) e em Lisboa, com Carlos Cruz (promoção), José *Calvário (consultor musical e director artístico) e, a partir de 1971, a conselho de A. C. de Oliveira, José *Niza (enquanto compositor, autor de letras e produtor discográfico). Ainda em 1971, Arnaldo Trindade comprou a Discoteca Universal (Lisboa, Rua do Carmo), onde passou a distribuir os fonogramas Orfeu e em cujo edifício se encontrava a sede da AT em Lisboa, sob gerência de Manolo Estevez. Por outro lado, a implementação de um vínculo contratual com uma remuneração mensal fixa sob a condição de gravação de um LP por ano viria a proporcionar a José *Afonso um período de gravação regular de que resultou a parte mais substancial da sua obra gravada, iniciada em 1968 com o LP Cantares do Andarilho e continuada com Contos Velhos, Rumos Novos (1969), Traz Outro Amigo também (1970), Cantigas do Maio (1971), Eu Vou Ser como a Toupeira (1972), Venham mais Cinco (1973) e Coro dos Tribunais (1974). O empenho na qualidade sonora dos fonogramas ditou a opção por estúdios estrangeiros (França, Espanha e Inglaterra), com mais recursos técnicos. José Niza, que começou a sua colaboração com a editora concebendo os discos de A. C. de Oliveira (Cantar de Emigração e Gente de aqui e de agora, 1971) e colaborando na produção de Cantigas do Maio (1971) de J. Afonso, articulou a estratégia competitiva da empresa com a constituição de novos repertórios, quer assegurando a contratação de intérpretes (como Paulo de *Carvalho), quer como autor e compositor em colaboração com J. Calvário. Encarando o *Festival RTP da Canção (FRTPC) como meio de aproximar a produção musical portuguesa das correntes da canção popular internacional, a actuação de J. Niza na AT contribuiu para o movimento de renovação da música popular portuguesa, o que foi determinante para o desenvolvimento da editora na primeira metade da década de 70. Deste momento paradigmático na *música popular em Portugal, podem destacar-se, além dos LP de J. Afonso, as canções com letras de J. Niza Maria vida fria (mús. Pedro *Osório; voz P. de Carvalho), Festa da vida (mús. J. Calvário; voz Carlos *Mendes), que venceu o FRTPC de 1972, e E depois do adeus (mús. J. Calvário; voz P. de Carvalho), que venceu a edição do FRTPC de 1974, canção que, juntamente com Grândola, vila morena, de J. Afonso (Cantigas do Maio, 1971), seria utilizada como sinal radiofónico para desencadear o movimento militar do 25 de Abril. A empresa manteve esta linha editorial após 1974, sendo responsável pela edição de músicos da emergente música popular portuguesa como Luís *Cília, José Jorge *Letria, Sérgio *Godinho, Francisco *Fanhais, *Fausto, *Vitorino, e.o. e de outros intérpretes de grande popularidade como José *Cid, *Tonicha, P. de Carvalho, C. Mendes, e.o. Após a desintegração da equipa, em 1976, Arnaldo da Costa Trindade (Noly), filho de A. Trindade, assumiu as funções idênticas à da equipa anterior. Em 1977 a editora comprou os estúdios de gravação da empresa Polysom (Alto de Campolide, Lisboa), o que possibilitou uma maior autonomia e o controlo do processo de gravação e produção musical. Em 1980, Arnaldo Trindade comprou a Fábrica de Discos *Rádio Triunfo Lda. (principal fábrica de prensagem que servia a editora) em sociedade com José Serafim (proprietário da editora *Movieplay). O catálogo da Orfeu manteve-se autónomo durante c. um ano, mas foi finalmente integrado no catálogo da editora Rádio Triunfo (1982-1983). Em 1986, A. da C. Trindade vendeu a sua parte na Rádio Triunfo a J. Serafim, que manteve o catálogo da etiqueta Orfeu.
Bibliografia: Losa, Leonor (2009) «Nós humanizámos a indústria»: Reconfiguração da produção fonográfica e musical em Portugal na década de 60. Diss. de mestrado, FCSH-UNL.

EMPXX - Leonor Losa e António Tilly

Data de criação

2019-02-18

Criador do item

Gonçalo Antunes de Oliveira

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Os Titãs

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