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CONCEIÇÃO, Moisés Ribeiro

Nome

CONCEIÇÃO, Moisés Ribeiro

Nomes alternativos

Moisés Ribeiro
Moisés Manjate

Função

Instrumentista
Intérprete

Local de nascimento

Maputo

Data de nascimento

1920-02-04

Género

Masculino

Biografia

Os cerca de cem anos de vida de Moisés Ribeiro da Conceição são testemunhas dos diversos acontecimentos e transformações vividos na História de Moçambique ao longo do século XX e depois, assim como também é, ele próprio, um agente importante da vida pública do país. Tamanha senioridade reflecte-se, dentre outros aspectos, no facto de ser o fundador do conjunto musical mais longevo e em actividade no território nacional: a Orquestra Djambo. Entre fins da década de 1950 e princípios da década de 1960, fundou, juntamente com outro músicos de destaque na altura, este agrupamento que contribuiu enormemente para definir e “estilizar” aquele que seria um dos géneros musicais mais representativos de Moçambique: a Marrabenta.
Nasceu a 4 de Fevereiro de 1920 no bairro suburbano do Jardim, e logo nos primeiros anos de vida, foi viver no bairro da Malanga (também no subúrbio), na casa da mãe, que na altura era uma das três esposas de seu pai. E foi ainda na infância que deu-se a sua iniciação musical de forma quase casual, por conta de um cunhado músico, que deixava os seus instrumentos dispersos na casa, os quais a criança aproveitava para “brincar”. Inicialmente, começou a tocar o rufo do tambor de forma instintiva, a acompanhar as músicas típicas dos soldados que passavam pelas ruas do bairro, e mais tarde, como forma de estímulo, recebeu do seu cunhado uma marimba e um clarinete, por sinal o preferido de Moisés. Através da imitação dos movimentos e gestos do cunhado, aprendeu a tocar que ele tocava com frequência na casa de baile onde actuava, no bairro da Malhangalene (onde actualmente encontra-se o supermercado “Shoprite”). Nessa altura, ainda na tenra infância, chegou a se apresentar com o cunhado na sala de baile, apenas executando o tema de abertura que tinha aprendido.
Já na adolescência, conviveu com o tio José Alabsini (casado com uma tia materna), que era na altura, despachante oficial na Rua Consiglieri Pedroso. Aos dezoito anos, em 1938, tirou a 4a. Classe na Escola Primária da Munhuana e como não encontrava ocupação, optou por dedicar-se mais aos estudos por conta de um convite que recebeu para estudar na Escola do Alvor, no Distrito da Manhiça. Entretanto, perdeu o prazo para a matrícula e viu-se obrigado a procurar trabalho na cidade, tendo exercido diversas funções na Baixa da Cidade, entre elas como servente nos escritórios da empresa Breiner & Wirth e depois, por influência da família Albasini, conseguiu emprego na antiga Casa da Metrópole, distribuindo jornais de Lisboa nas diversas repartições do Estado espalhadas pela cidade.
Nesta altura, já na juventude, Moisés viva no bairro da Munhuana e, dentre outras coisas, interessava-se muito por futebol. Além dos jogos, frequentava também as sedes sociais de alguns dos clubes suburbanos da época, como o Mahafil, o Beira-Mar e o João Albasini. Num desses convívios, foi convidado por um amigo zambeziano para ser tesoureiro do clube de João Albasini, que prontamente aceitou embora não se considerasse apto para exercer a função, devido à baixa escolaridade. Foi durante esta experiência que aprendeu a tocar guitarra de forma bastante curiosa: enquanto trabalhava no guichê da bilheteira, observava os músicos Chico Albasini e Arnaldo Ndapana a ensaiarem. Por observação, apontava num papel as “casas” do braço da guitarra em que tocavam (algo como uma tablatura) e compilava o material num livro de apontamentos. Guardou este material e casa e sonhava com o dia em que poderia ter o instrumento para pôr em prática aquilo que observava.
Desta forma, foi acumulando um vasto repertório de rumba. Samba, salsa, bolero, passe doble, jazz e outros ritmos que estavam em voga na época. Tão curiosa como a forma através da qual “aprendeu” foi a oportunidade que surgiu para, efectivamente, começar a tocar o instrumento: um amigo tinha uma guitarra, mas não sabia tocar. Então, pediu-lhe que ensinasse, pois sabia do seu “aprendizado” e assim, deixava a guitarra em sua casa. Foi a oportunidade concreta para começar a praticar, que desenvolveu-se mais ainda quando conheceu os irmão Simões, que desejavam formar um conjunto musical e logo, o convidaram para fazer parte. Nesta fase, aprendeu a tocar o bandolim, desenvolvendo, desta forma, algum conhecimento mais conceitual de música, aprendendo a identificar os tons e as notas.
Com este conjunto, formado por ele na guitarra e bandolim, Artur Simões na viola, mais um baterista e outro percussionista, Moisés teve a oportunidade de se apresentar em todo o circuito de bailes suburbanos na Lourenço Marques da década de 1940. No famoso bairro da Mafalala, tocava sem remuneração nas diversas casas do ramo, como por exemplo, o antigo Restaurante Vasco da Gama (actualmente sede do partido Frelimo, na Avenida de Angola) e no “Matlotlomana”, uma zona de prostituição no bairro onde, entre outras coisas, presenciou a violência dos soldados portugueses e marinheiros estrangeiros que, muitas vezes embriagados, invadiam estes lugares e dançavam com as mulheres à força, e não raro, igualmente conseguiam favores sexuais.
Certamente, nesta fase, Moisés presenciou e participou do surgimento da Marrabenta que, em linhas gerais, consiste num género de música popular suburbano surgido da mistura de elementos rítmicos tradicionais da zona sul do país com a musicalidade dos ritmos estrangeiros que tocavam-se nestes bailes, precisamente aqueles que erma tocados nos conjuntos dos quais fez parte. Na sua concepção, o próprio termo “Marrabenta” surgiu nos bailes musicais oferecidos pelo Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique, popularmente conhecido por “Ntsindya” (que quer dizer “sede”, em língua ronga).
Ainda segundo Moisés, em meados da década de 1950, conjuntos como o Young Ussufo Jazz Band tocavam o repertório internacional nos bailes do Centro, entretanto a uma dada altura, o líder do grupo (o próprio Ussufo) resolveu desistir e ficou com os instrumentos, que eram todos seus. Entretanto, os músicos, entre eles Moisés Ribeiro, queriam prosseguir mas não tinham os instrumentos. Foi aí que Samuel Dabula, director artístico do "Ntsindya", sugeriu que tocassem ritmos moçambicanos com os instrumentos adquiridos pelo Centro. Nas palavras de Ribeiro: “A gente tocava tudo, mas não tocava marrabenta porque nessa altura, ninguém tocavam marrabenta, nem fora nem dentro. Então, houve um programa que o falecido Dabula fez e disse assim: ‘Eu tenho aqui o programa: vocês vão tocar as nossas músicas, músicas daqui: xingombela, xiparatwana, essa coisa toda.’. Então, nos tocávamos xingombela, xiparatwana, xingomana, etc. com os nossos instrumentos. (...) Sim, na década de 1950. Agora, o que faltava ali era marrabenta... tocávamos tudo, menos marrabenta. Nós tocávamos aquilo que bebíamos lá fora, como por exemplo, (os ritmos) dzukuta, majika... Tocávamos conforme estava a se dançar lá fora, não inventamos, não”.
O “fora” a que Ribeiro se refere era, entre outras coisas, a musicalidade que se executava no “Mutumbela”, um cortejo de Carnaval que se fazia onde hoje é a Avenida de Angola, em que se executavam as danças e os ritmos tradicionais moçambicanos mencionados. Ainda de acordo com o seu depoimento, foi através do futuro Conjunto Djambo, do qual seria o fundador e membro mais longevo, que materializou-se a ideia de introduzir este manancial musical no repertório da banda de baile: “Aí nós já começamos a nos dedicar e pensamos: ‘Porque não se vai pra frente assim? Para apresentar no baile?’ Com a musica “Bambatela Sábado” (que consta do primeiro disco do grupo), é que nós corremos para a marrabenta. (...) Então, aí é que nos fundamos a nossa marrabenta. O Djambo é que fundou a marrabenta: a dança; não trouxe essas coisas todas, só a dança”.
Ribeiro não necessariamente reivindica a criação da marrabenta para o seu grupo, apenas sublinha o processo como resultante de todo um ambiente favorável para o surgimento de uma musicalidade genuinamente local. Foi nesse contexto, e no primeiro disco do grupo, emblematicamente intitulado simplesmente “Marrabenta” (lançado pela editora portuguesa Valentim de Carvalho, em 1965), que foi concebida a canção “Elisa Gomara Saia”, provavelmente a música moçambicana mais cantada (em diferentes versões gravadas ou não) e mais conhecida mundialmente.
Com a seguinte formação inicial: Moisés Ribeiro na viola; Mabombo no piano; José Mondlane, na bateria, no trompete número um; José Manuel no trompete número dois, Tiago Bila no trombone e Ussufo no saxofone, a Orquestra Djambo contribuiu para a “estilização” da marrabenta, de acordo com o conceito cunhado pelo investigador Rui Laranjeira. Outros grupos seguiram os passos e/ou também contribuíram para tal, de forma que já nos princípios da década de 1960, o ritmo foi tornando-se cada vez mais conhecido e divulgado. Para o efeito, contribuiu bastante o programa radiofónico “África à Noite”, veiculado pelo antigo Rádio Clube de Moçambique (actualmente, Rádio Moçambique, empresa estatal), que era dedicado ao entretenimento da população “indígena” de Moçambique. Assim, a marrabenta, originada nas zonas suburbanas de Lourenço Marques, ganhou o território nacional e mesmo, tornou-se famosa além-fronteiras.
Pelo facto de ter as suas actividades como conjunto musical associadas ao “Ntsindya”, a Orquestra Djambo sofreu também com a repressão do regime colonial português, quando do encerramento do Centro Associativo dos Negros, alegadamente por ser um foco de acção subversiva. Embora o grupo não defendesse de forma explicita a causa da luta anti-colonial, o simples facto de constituir, por si só, uma forma de afirmação da identidade cultural moçambicana através da música, colocava-lhe como um alvo possível neste contexto. Efectivamente, em 1965, a PIDE encerrou as actividades do Centro e assim, Moisés Ribeiro narra o episodio:
“Quando veio a PIDE, encontrou o Doutor (Domingos) Arouca ali e os agentes disseram: ‘Saiam, saiam e deixem os instrumentos!’. Ele saiu e depois, foram ter connosco: ‘Saiam!’. A gente queria carregar os instrumentos e eles diziam: “Não! Não levem nada!”. O Arouca defendeu: ‘Não levem nada porquê? Esses instrumentos não são do Centro, esses instrumentos são individuais’. Mas para a PIDE não interessava não se podia fazer mais nada. Saímos”.
Após alguns anos de pausa forcada, o grupo voltou ao activo em fins de 1969, passando a chamar-se “Djambo 70”. Desde então, tem actuado ininterruptamente, porem sem ter gravado outro álbum e vivenciado todos os estágios e situações vividos pelos fazedores da música moçambicana em geral. Devido à idade avançada, actualmente, Ribeiro não actua mais com o grupo, embora a sua presença seja comum nos espectáculos do conjunto, a acompanhar os músicos que mantém viva a chama de um dos conjuntos musicais mais importantes do país.

Instrumentos

Guitarra
Bandolim
Clarinete

Link associado

https://noticias.sapo.mz/sociedade/artigos/orquestra-djambo-mais-de-50-anos-a-dar-musica

Notas

Entrevista concedida ao ARPAC, a 2012-03-07, em sua residência no Bairro da Munhuana, no ambito de uma pesquisa sobre a Marrabenta, género musical moçambicano do qual Moisés e a Orqestra Djambo forma importantes precursores

Criado por

Marílio Wane

Data de Criação

2018-11-20

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