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Pessoas

CHIAU, Gabriel

Cantor
Compositor
Instrumentista

Gabriel Chiau

n. Maputo, 1939-11-15

A biografia e o percurso deste verdadeiro ícone da Marrabenta confunde-se com o próprio surgimento e consolidação daquilo que conhecemos como a música popular moçambicana nos dias actuais.
Gabriel Ruben Chiau nasceu a 15 de Novembro de 1939, no bairro do Chamanculo, na zona suburbana da antiga Lourenço Marques, filho de Ruben Manhatel Chiau e Lídia Jaquite Ntseco, ambos naturais de Calanga, na Manhiça, na Província de Maputo. Embora enraizado por quase toda a vida no bairro, passou parte da infância na Machava (no Distrito da Matola, na mesma província), período em que dedicou-se a actividades como boxe, luta-livre, serralheria mecânica e por fim, a música. De regresso ao bairro que o viu nascer, estudos nos primeiros anos na Escola Primária na Missão Suíça e depois, fez o curso técnico industrial durante três anos (não tendo completado os cinco por não ter condições financeiras dpara suportar os estudos). Aos dezanove anos, em 1958, começa a trabalhar nos Caminhos de Ferro de Moçambique, na função de contra-marca, a organizar as mercadorias no porto.
O interesse pela música desenvolveu-se ainda durante os seus estudos na escola da Missão Suíça, quando passou a integrar um grupo liderado pelo celebre pastor suíço Daniel Clerc, do qual faziam parte também o famoso Maestro Justino Chemane e o músico Tiago Bila (mais tarde membro da Orquestra Djambo). Foi neste convívio que aprendeu a tocar o trompete. Neste ambiente também o seu pai, Ruben Manhatel Chiau, teve grande influencia por ensinar as canções religiosas durante as sessões de catequese.
As músicas tocadas na rádio na altura também o influenciaram enormemente, especialmente o som das orquestras, como por exemplo, a dos Irmãos Dinis (famosa na época), pelo qual apaixonou-se. Ainda na década de 1950, teve a oportunidade de assistir ao Conjunto João Domingos, no Ntsindya, no Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique, que tocava não apenas música moçambicana, mas também outros ritmos em voga, tais como a rumba, o samba, a salsa, o jazz, etc.
Tendo aprendido a tocar trompete com o maestro Chemane e influenciado por Louis Armostrong, Chiau dedicou-se ao instrumento e também à guitarra mais ainda quando passou a integrar o conjunto Harmonia, com o qual fez muitas actuações na década de 1960. Já nos fins da década, fundou o grupo Kwekwety, que contava com vinte elementos: um trompete (executado por ele próprio, que também cantava e dançava), três saxofonistas, dois guitarristas e dois percussionistas, para além de doze bailarinos. Dentre estes últimos, o consagrado dançarino Raul Baza, que veio a destacar-se de tal maneira que, mais tarde, fundou o seu próprio grupo, igualmente com bastante sucesso.
Durante todo este período que compreende a sua iniciação musical e a consagração como músico estabelecido e conhecido, Chiau participou de todo o movimento cultural que consolidou a marrabenta como um género de musica popular genuinamente moçambicano, ainda no tempo colonial. Com o conjunto Harmonia, actuou na programa “África à Noite”, veiculado pela então rádio Clube de Moçambique no início da década de 1960. Este programa radiofónico constituía numa tentativa de aproximação, por parte do governo colonial, com o público “nativo” moçambicano, através do entretenimento baseado nas suas raízes culturais. Foi, sem dúvida, um dos focos de disseminação da Marrabenta para todo o território nacional, através das ondas da rádio. Ainda como integrante deste agrupamento, Chiau actou diversas vezes no Ntsindiya e na Associação Africana, também dois espaços importantes para a divulgação do género.
Participou também de muitas edições do “Mutumbela”, que era uma celebração de Carnaval realizada na actual Avenida de Angola, ainda na década de 1960. Nestas festas, eram executados diversos ritmos moçambicanos tais como xingomana, nfena, xiparatwana, xigubo, dzukuta, entre outros, contribuindo também para dar forma e desenvolver ainda mais o género musical que já tornara-se bastante popular. Havia também, no Bairro do Chamanculo, onde Chiau nasceu e foi criado, a “sede” de Lisboa Matavale: a casa de madeira-e-zinco onde residia o artista e que funcionava também como um local de espectáculos nocturnos. Este espaço era bastante frequentado por apreciadores da música popular então nascente, entre moçambicanos , turistas estrangeiros e também brancos colonos que, em busca de novidades, de entretenimento e de alguma aventura, transgrediam os limites impostos pela lógica colonial segregacionista.
Após o longo período com o Grupo Kwekwety, que atravessou a independência, Chiau acabou por concentra-se na sua carreira a solo, actuando por diversos anos, na década de 2000, como músico residente no Hotel Polana com o seu conjunto Quinteto Chiau. Nesta fase, recebeu inúmeros convites do Centro Cultural Franco-Moçambicano para actuar nas Ilhas Reunião e também outros para actuar na vizinha África do Sul, onde a sua música é também conhecida.
Autor de verdadeiros clássicos da música popular moçambicana, tais como "Mina Uni Tendere" e "Go Go Go", entre outros, Chiau carrega no seu percurso de vida alguns elementos constituintes da base da mesma: a vivência nas zonas suburbanas de Lourenço Marques, a condição de assimilado, a experiência nas missões protestantes e a participacao difusa num movimento mais amplo da afirmação de uma identidade cultural nacional através da música.

Nome

CHIAU, Gabriel

Nomes alternativos

Gabriel Chiau

Função

Cantor
Compositor
Instrumentista

Local de nascimento

Maputo

Data de nascimento

1939-11-15

Género

Masculino

Biografia

A biografia e o percurso deste verdadeiro ícone da Marrabenta confunde-se com o próprio surgimento e consolidação daquilo que conhecemos como a música popular moçambicana nos dias actuais.
Gabriel Ruben Chiau nasceu a 15 de Novembro de 1939, no bairro do Chamanculo, na zona suburbana da antiga Lourenço Marques, filho de Ruben Manhatel Chiau e Lídia Jaquite Ntseco, ambos naturais de Calanga, na Manhiça, na Província de Maputo. Embora enraizado por quase toda a vida no bairro, passou parte da infância na Machava (no Distrito da Matola, na mesma província), período em que dedicou-se a actividades como boxe, luta-livre, serralheria mecânica e por fim, a música. De regresso ao bairro que o viu nascer, estudos nos primeiros anos na Escola Primária na Missão Suíça e depois, fez o curso técnico industrial durante três anos (não tendo completado os cinco por não ter condições financeiras dpara suportar os estudos). Aos dezanove anos, em 1958, começa a trabalhar nos Caminhos de Ferro de Moçambique, na função de contra-marca, a organizar as mercadorias no porto.
O interesse pela música desenvolveu-se ainda durante os seus estudos na escola da Missão Suíça, quando passou a integrar um grupo liderado pelo celebre pastor suíço Daniel Clerc, do qual faziam parte também o famoso Maestro Justino Chemane e o músico Tiago Bila (mais tarde membro da Orquestra Djambo). Foi neste convívio que aprendeu a tocar o trompete. Neste ambiente também o seu pai, Ruben Manhatel Chiau, teve grande influencia por ensinar as canções religiosas durante as sessões de catequese.
As músicas tocadas na rádio na altura também o influenciaram enormemente, especialmente o som das orquestras, como por exemplo, a dos Irmãos Dinis (famosa na época), pelo qual apaixonou-se. Ainda na década de 1950, teve a oportunidade de assistir ao Conjunto João Domingos, no Ntsindya, no Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique, que tocava não apenas música moçambicana, mas também outros ritmos em voga, tais como a rumba, o samba, a salsa, o jazz, etc.
Tendo aprendido a tocar trompete com o maestro Chemane e influenciado por Louis Armostrong, Chiau dedicou-se ao instrumento e também à guitarra mais ainda quando passou a integrar o conjunto Harmonia, com o qual fez muitas actuações na década de 1960. Já nos fins da década, fundou o grupo Kwekwety, que contava com vinte elementos: um trompete (executado por ele próprio, que também cantava e dançava), três saxofonistas, dois guitarristas e dois percussionistas, para além de doze bailarinos. Dentre estes últimos, o consagrado dançarino Raul Baza, que veio a destacar-se de tal maneira que, mais tarde, fundou o seu próprio grupo, igualmente com bastante sucesso.
Durante todo este período que compreende a sua iniciação musical e a consagração como músico estabelecido e conhecido, Chiau participou de todo o movimento cultural que consolidou a marrabenta como um género de musica popular genuinamente moçambicano, ainda no tempo colonial. Com o conjunto Harmonia, actuou na programa “África à Noite”, veiculado pela então rádio Clube de Moçambique no início da década de 1960. Este programa radiofónico constituía numa tentativa de aproximação, por parte do governo colonial, com o público “nativo” moçambicano, através do entretenimento baseado nas suas raízes culturais. Foi, sem dúvida, um dos focos de disseminação da Marrabenta para todo o território nacional, através das ondas da rádio. Ainda como integrante deste agrupamento, Chiau actou diversas vezes no Ntsindiya e na Associação Africana, também dois espaços importantes para a divulgação do género.
Participou também de muitas edições do “Mutumbela”, que era uma celebração de Carnaval realizada na actual Avenida de Angola, ainda na década de 1960. Nestas festas, eram executados diversos ritmos moçambicanos tais como xingomana, nfena, xiparatwana, xigubo, dzukuta, entre outros, contribuindo também para dar forma e desenvolver ainda mais o género musical que já tornara-se bastante popular. Havia também, no Bairro do Chamanculo, onde Chiau nasceu e foi criado, a “sede” de Lisboa Matavale: a casa de madeira-e-zinco onde residia o artista e que funcionava também como um local de espectáculos nocturnos. Este espaço era bastante frequentado por apreciadores da música popular então nascente, entre moçambicanos , turistas estrangeiros e também brancos colonos que, em busca de novidades, de entretenimento e de alguma aventura, transgrediam os limites impostos pela lógica colonial segregacionista.
Após o longo período com o Grupo Kwekwety, que atravessou a independência, Chiau acabou por concentra-se na sua carreira a solo, actuando por diversos anos, na década de 2000, como músico residente no Hotel Polana com o seu conjunto Quinteto Chiau. Nesta fase, recebeu inúmeros convites do Centro Cultural Franco-Moçambicano para actuar nas Ilhas Reunião e também outros para actuar na vizinha África do Sul, onde a sua música é também conhecida.
Autor de verdadeiros clássicos da música popular moçambicana, tais como "Mina Uni Tendere" e "Go Go Go", entre outros, Chiau carrega no seu percurso de vida alguns elementos constituintes da base da mesma: a vivência nas zonas suburbanas de Lourenço Marques, a condição de assimilado, a experiência nas missões protestantes e a participacao difusa num movimento mais amplo da afirmação de uma identidade cultural nacional através da música.

Instrumentos

Tropmete
Guitarra

Referências Bibliográficas

Miguel, Amâncio (2005), "Marrabentar", Maputo: Marimbique

Fontes

Entrevista concedida ao ARPAC-Instituto de Investigação Sócio-Cultural, no âmbito de uma pesquisa sobre a Marrabenta, realizada em sua residência, no bairro do Chamanculo, a 12 de Abril de 2012.

Criado por

Carolina Sá

Data de Criação

2018-08-02

Modificado/ enriquecido / revisto por

Marílio Wane

Data de modificação

2018-11-08

Média