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Pessoas

CONCEIÇÃO, Chico da

Compositor
Cantor
Intérprete
Arranjador

Chico da Conceição
Francisco João António da Conceição

n. Inhambane, 1927-06-14

Chico da Conceição é uma das principais referências do saxofone em Moçambique, tanto pelo seu talento individual como instrumentista quanto pela sua carreira longeva, marcada por uma vivencia que atravessou diversos momentos da própria História do país. Por falar neste aspecto, um facto inusitado certamente impactou definitivamente a sua vida, tendo vindo a moldar a sua intervenção social em diversos sentidos: no próprio dia 25 de Junho de 1975, foi subitamente acometido pela cegueira, em meio às comemorações pela Independência na cidade de Nampula, onde residia na altura.
Entretanto, Chico nasceu cinco décadas antes, na cidade de Inhambane, aos 14 de Junho de 1927, numa família bastante ligada à música por influência de seu avô brasileiro, que serviu no exército português, nas tropas de Mouzinho de Albuquerque. Entretanto há indicações de que o seu pai tinha certa aversão à música por conta de alguma preocupação com o futuro dos filhos. Esta visão decorria do senso comum bastante recorrente na altura, em que os músicos eram vistos como “marginais”. A despeito disso, ainda na infância, passou a acompanhar dois de seus irmãos mais velhos que haviam criado o agrupamento Melodia e se apresentavam na sua cidade natal. Nesta fase, aprendeu a tocar guitarra acústica, viola, violino, banjo e bandolim. Como se pode depreender, o ambiente musical familiar teve grande influência no despertar da sua musicalidade.
Já bastante socializado neste ambiente, estreia-se nos palcos a 5 de Outubro de 1941, com apenas catorze anos, a acompanhar o conjunto Melodia, numa apresentação que ficará para sempre na sua memória. Entretanto, sem grandes possibilidades de continuar os estudos neste momento da vida, candidatou-se ao cargo de dactilografo, o qual exerceu por alguns anos meses na Intendência da Administração do então Distrito de Inhambane.
Não levou muito tempo nesta função porque logo no ano seguinte, em 1942, o seu pai foi transferido para Vilanculos com o pai, que trabalhava na empresa Correios, Telégrafos e Telefones (CTT, que após a Independência, foi nacionalizada e passou a ser designada por TDM – Telecomunicações de Moçambique e Correios de Moçambique). Nesta vila, Chico encontrou espaço para tocar no pequeno circuito musical local ao mesmo tempo em que aprendia mecânica de automóveis, tendo vindo a se tornar num dos mecânicos mais requisitados da zona. Foi neste período, precisamente a partir de 1945, que aprendeu a tocar saxofone de forma autodidáctica, em função dos seus contactos com músicos da região.
Em 1948, expira o contrato de seu pai, que regressa à cidade de Inhambane com o filho e este, por sua vez, passa a trabalhar como electricista na Câmara Municipal. Uma década depois, é a sua vez de transferir-se para outro ponto do pais em decorrência do trabalho na antiga CTT. No ano de 1959, Chico da Conceição é destacado para trabalhar no Centro de Comunicações do Norte na então Vila Francisco Barreto (15km do Lumbo), na Província de Nampula. Inicialmente, por conta do trabalho, manteve-se relativamente distante das lides musicais. Só a partir de 1962, quando é transferido para a cidade Nampula é que regressa ao circuito, actuando com os músicos da cidade.
Mesmo sendo largamente reconhecido no meio, uma particularidade marca a sua carreira: o facto de ter feito poucas gravações e, portanto, ter deixado escassos registos. Sobre este aspecto e neste período, declarou:
“Não gravei nada no tempo colonial. Havia uma barreira própria, mesmo tocar em bairros era proibido para os nativos. Depois da independência, os estúdios eram muito concorridos e achei que era melhor dar oportunidade aos mais novos” (Miguel, 2005: 43).
Em 1981, Chico viaja a Portugal para tratar do problema da vista, sem sucesso. Entretanto, durante a sua estadia, recebeu diversos convites para actuações em espectáculos e programas de TV, todos recusados. Apenas cinco anos depois, em 1986, aceitou as solicitações, tendo actuado no famoso Hotel Mónaco e em vários programas televisivos. Foi ainda neste ano que reformou-se após décadas de trabalho nas TDM. Participou também no Festival Khanimambo, iniciativa destinada agradecer a comunidade internacional pelo apoio no combate à fome no país. Foi um dos criadores da canção temática Khanimambo, ao lado de artistas consagrados como Yana, SS, HL, Chitsondzo, Elvira Viegas, Mingas, Fernando Luís, entre outros.
Já a partir de fins desta década, iniciou a preparação da sua primeira cassete, que viria a ser lançada em 1997, intitulada Realidades e editada pela Rádio Moçambique. O trabalho, que contou com a produção de Hortêncio Langa e a participação do baixista Manuel de Jesus, o baterista Paíto Tcheco e o tecladista Adérito Gomate) teve boa recepção por parte do público que já há muito ansiava por um registo condigno da sua obra. Foi também coroado com uma actuação histórica para a inauguração do Emissor Provincial de Inhambane da Rádio Moçambique, um grande acontecimento na sua cidade natal no mesmo ano.
Ao fim da década, abandona o cenário musical, alegadamente em função da sua filiação à Igreja Evangélica Maná onde, entretanto, dedica-se a transmitir o seu conhecimento musical aos jovens da sua comunidade religiosa. Contudo, no ano de 2000, lança o CD Sempre Presente, produzido por Júlio Silva, com uma nova colecção de temas originais, surpreendendo o público, que já o considerava afastado das lides musicais.

Nome

CONCEIÇÃO, Chico da

Nomes alternativos

Chico da Conceição
Francisco João António da Conceição

Função

Compositor
Cantor
Intérprete
Arranjador

Local de nascimento

Inhambane

Data de nascimento

1927-06-14

Género

Masculino

Biografia

Chico da Conceição é uma das principais referências do saxofone em Moçambique, tanto pelo seu talento individual como instrumentista quanto pela sua carreira longeva, marcada por uma vivencia que atravessou diversos momentos da própria História do país. Por falar neste aspecto, um facto inusitado certamente impactou definitivamente a sua vida, tendo vindo a moldar a sua intervenção social em diversos sentidos: no próprio dia 25 de Junho de 1975, foi subitamente acometido pela cegueira, em meio às comemorações pela Independência na cidade de Nampula, onde residia na altura.
Entretanto, Chico nasceu cinco décadas antes, na cidade de Inhambane, aos 14 de Junho de 1927, numa família bastante ligada à música por influência de seu avô brasileiro, que serviu no exército português, nas tropas de Mouzinho de Albuquerque. Entretanto há indicações de que o seu pai tinha certa aversão à música por conta de alguma preocupação com o futuro dos filhos. Esta visão decorria do senso comum bastante recorrente na altura, em que os músicos eram vistos como “marginais”. A despeito disso, ainda na infância, passou a acompanhar dois de seus irmãos mais velhos que haviam criado o agrupamento Melodia e se apresentavam na sua cidade natal. Nesta fase, aprendeu a tocar guitarra acústica, viola, violino, banjo e bandolim. Como se pode depreender, o ambiente musical familiar teve grande influência no despertar da sua musicalidade.
Já bastante socializado neste ambiente, estreia-se nos palcos a 5 de Outubro de 1941, com apenas catorze anos, a acompanhar o conjunto Melodia, numa apresentação que ficará para sempre na sua memória. Entretanto, sem grandes possibilidades de continuar os estudos neste momento da vida, candidatou-se ao cargo de dactilografo, o qual exerceu por alguns anos meses na Intendência da Administração do então Distrito de Inhambane.
Não levou muito tempo nesta função porque logo no ano seguinte, em 1942, o seu pai foi transferido para Vilanculos com o pai, que trabalhava na empresa Correios, Telégrafos e Telefones (CTT, que após a Independência, foi nacionalizada e passou a ser designada por TDM – Telecomunicações de Moçambique e Correios de Moçambique). Nesta vila, Chico encontrou espaço para tocar no pequeno circuito musical local ao mesmo tempo em que aprendia mecânica de automóveis, tendo vindo a se tornar num dos mecânicos mais requisitados da zona. Foi neste período, precisamente a partir de 1945, que aprendeu a tocar saxofone de forma autodidáctica, em função dos seus contactos com músicos da região.
Em 1948, expira o contrato de seu pai, que regressa à cidade de Inhambane com o filho e este, por sua vez, passa a trabalhar como electricista na Câmara Municipal. Uma década depois, é a sua vez de transferir-se para outro ponto do pais em decorrência do trabalho na antiga CTT. No ano de 1959, Chico da Conceição é destacado para trabalhar no Centro de Comunicações do Norte na então Vila Francisco Barreto (15km do Lumbo), na Província de Nampula. Inicialmente, por conta do trabalho, manteve-se relativamente distante das lides musicais. Só a partir de 1962, quando é transferido para a cidade Nampula é que regressa ao circuito, actuando com os músicos da cidade.
Mesmo sendo largamente reconhecido no meio, uma particularidade marca a sua carreira: o facto de ter feito poucas gravações e, portanto, ter deixado escassos registos. Sobre este aspecto e neste período, declarou:
“Não gravei nada no tempo colonial. Havia uma barreira própria, mesmo tocar em bairros era proibido para os nativos. Depois da independência, os estúdios eram muito concorridos e achei que era melhor dar oportunidade aos mais novos” (Miguel, 2005: 43).
Em 1981, Chico viaja a Portugal para tratar do problema da vista, sem sucesso. Entretanto, durante a sua estadia, recebeu diversos convites para actuações em espectáculos e programas de TV, todos recusados. Apenas cinco anos depois, em 1986, aceitou as solicitações, tendo actuado no famoso Hotel Mónaco e em vários programas televisivos. Foi ainda neste ano que reformou-se após décadas de trabalho nas TDM. Participou também no Festival Khanimambo, iniciativa destinada agradecer a comunidade internacional pelo apoio no combate à fome no país. Foi um dos criadores da canção temática Khanimambo, ao lado de artistas consagrados como Yana, SS, HL, Chitsondzo, Elvira Viegas, Mingas, Fernando Luís, entre outros.
Já a partir de fins desta década, iniciou a preparação da sua primeira cassete, que viria a ser lançada em 1997, intitulada Realidades e editada pela Rádio Moçambique. O trabalho, que contou com a produção de Hortêncio Langa e a participação do baixista Manuel de Jesus, o baterista Paíto Tcheco e o tecladista Adérito Gomate) teve boa recepção por parte do público que já há muito ansiava por um registo condigno da sua obra. Foi também coroado com uma actuação histórica para a inauguração do Emissor Provincial de Inhambane da Rádio Moçambique, um grande acontecimento na sua cidade natal no mesmo ano.
Ao fim da década, abandona o cenário musical, alegadamente em função da sua filiação à Igreja Evangélica Maná onde, entretanto, dedica-se a transmitir o seu conhecimento musical aos jovens da sua comunidade religiosa. Contudo, no ano de 2000, lança o CD Sempre Presente, produzido por Júlio Silva, com uma nova colecção de temas originais, surpreendendo o público, que já o considerava afastado das lides musicais.

Instrumentos

Saxofone
Guitarra

Referências Bibliográficas

Miguel, Amâncio (2005), "Marrabentar", Maputo: Marimbique

Notas

A imagem que ilustra este item está disponível em:
http://www.macua.org/dersomloja/pt/dept_149.html, acedido a 2018-11-12

Criado por

Té Lacerda

Data de Criação

2018-07-06

Modificado/ enriquecido / revisto por

Marílio Wane

Data de modificação

2018-11-02

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